21/10/11

Arte Literatura - Uma fotografia autografada do meu Primo Alexandre Babo, que ofereceu em vida à minha Mãe!

Alexandre Babo
Alexandre Babo, Escritor

«Alexandre Babo


Alexandre Feio dos Santos Babo (Lisboa, 30 de Julho de 1916 - Cascais, 2 de Novembro de 2007) foi um dramaturgo, jornalista e escritor português. Era filho do jurista, escritor, Republicano e Maçon Carlos Cândido dos Santos Babo (1882-1957), e casado com a artista plástica Elsa Peixoto.


Índice [esconder]


1 Biografia
2 Algumas obras publicadas
2.1 Peças teatrais
2.2 Contos
2.3 Romances
2.4 Ensaio
2.5 Biografias/Memórias
3 Fontes de Consulta


[editar]Biografia


Alexandre Babo ingressou em 1933 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, licenciando-se em 1939. Foi desde muito novo militante antifascista e democrata. Em 1936, na clandestinidade, foi iniciado na Maçonaria, fazendo parte da Acção Anticlerical e Antifascista e do Bloco Académico Antifascista, onde lutou contra o salazarismo. Em 1941 fundou com Amaral Guimarães e Abílio Mendes as Edições Sirius que tiveram uma importante contribuição cultural. Após a Segunda Guerra Mundial, vai para Paris como delegado da revista Mundo Literário. Em Londres foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e, posteriormente, em 1960, foi correspondente do Jornal de Notícias e cronista da BBC.
Em 1943 ingressou no Partido Comunista Português. Como advogado interveio nos julgamentos do Tribunal Plenário do Porto e no Supremo Tribunal de Justiça em defesa de acusados políticos. Fez parte do Conselho do Porto do Movimento de Unidade Democrática e da Comissão Distrital da Campanha do General Norton de Matos.
Enquanto exercia advocacia no Porto fundou, junto com António Pedro e Egito Gonçalves, o Teatro Experimental do Porto. Separou-se deste para, em 1960, contribuir para a fundação do Teatro Moderno do Clube Fenianos Portuenses junto com Luís de Lima e Fernando Gaspar. Foi director do Círculo de Cultura Teatral e em 1964, de volta a Lisboa, fundou O Palco, Clube de Teatro. Fez crítica de teatro durante dez anos.
Entre 1961 e 1965 foi colaborador permanente do Jornal de Notícias, com uma crónica às segundas-feiras. Desde 1965 exerceu advocacia em Lisboa. No campo das letras dedicou-se ao teatro, à ficção, à crítica, ao jornalismo e à tradução. Foi um dos fundadores da Associação Portuguesa de Escritores, em 1973, tendo sido sócio honorário daquela associação e cooperante da Sociedade Portuguesa de Autores desde 1977. Foi co-fundador da Liga Para o Intercâmbio Cultural Social Científico com os Povos Socialistas, da Associação Portugal-URSS. Com outros, ajudou a fundar a Associação Portugal-RDA, sendo seu secretário-geral até à unificação das Alemanhas.
Várias das suas obras foram proibidas pela censura da PIDE. Recebeu a medalha de mérito cultural da Câmara Municipal de Cascais, Concelho onde vivia. Faleceu aos 91 anos, no dia 2 de Novembro de 2007, no Hospital de Cascais, deixando vários textos inéditos.


[editar]Algumas obras publicadas


[editar]Peças teatrais


1951 - Há uma Luz que se Apaga
1955 - Encontro
1961 - Estrela para um Epitáfio
1972 - Jardim Público
1977 - A Reunião


[editar]Contos


1957 - Alguns Contos
1972 - Sem Vento de Feição


[editar]Romances


1994 - A Nativa do Arquipélago do Vento


[editar]Ensaio


1958 - Problemas de Teatro


[editar]Biografias/Memórias


1957 - Autobiografia
1984 - Memórias de um Caminheiro
1995 - Carlos Babo: O Espírito da Resistência
1999 - No Meu Tempo


[editar]Fontes de Consulta


BABO, Alexandre - Carlos Babo: O Espírito da Resistência, Edições Universitárias Lusófonas, Col. Meia Hora de Leitura, N.º 7, Lisboa, 1995.
VENTURA, António - Revoltar para resistir. A Maçonaria em Almada (1898 - 1937), Câmara Municipal de Almada, Col. Estudos Locais, Almada, 2010, pp. 112-114.
Campo das Letras - Biografias de Autores: Alexandre Babo, in http://www.campo-letras.pt/autores/alex_babo.html» in http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Babo


«Carta onde Alexandre Babo, descreve o General Humberto Delgado, a José Correia Tavares


“Meu caro José Correia Tavares: Seria vaidade se te desse isto como um valor cotado na bolsa do mérito, agora ou mais tarde. Não. Certamente nada valerá para o futuro. Apenas se quando o meu espólio para amigos ou “ratos de biblioteca”, ao menos que dê qualquer coisa de mim a um amigo. Não é vaidade nem humildade em demasia, que o João de Deus considerava vitupério. Sei o que valho relativamente e não perco as dimensões.

Uma personalidade perturbante

O General Humberto Delgado, ainda hoje, tanto tempo passado sobre o seu meteórico e determinante aparecimento na vida política portuguesa, tanto tempo passado sobre o seu assassinato infame — e infamemente não punido, tanto no respeitante aos seus executores como aos seus mandantes e cúmplices — é para mim uma personalidade perturbante e, de certa forma, enigmática.
Lembro-me, para lá da sua chegada triunfal ao Porto, onde praticamente toda a cidade o vitoriou, aquela límpida manhã, com toda a baixa portuense guardada por um impressionante aparato policial, criando uma barreira à população que pretendia aproximar-se do seu herói, que pernoitou no Hotel Infante de Sagres. E eis que, à frente de umas duas dezenas, se tanto, de elementos da sua candidatura, envergando a sua farda de general, sobressaindo entre todos os civis que o acompanhavam, ele sai do hotel e desce até à Avenida dos Aliados, num passo cadenciado e rápido de raiva, como se aquele provocar de força bruta significasse a consciência de uma nação farta de ser dominada, momento histórico inesquecível para quem o viveu. Um grito, como chama de som, rompeu espontâneo de todos quantos ali o esperavam.


Maxilares comprimidos, rostos tensos, lágrimas de revolta e de ira, em todos os rostos. Alguns militares — tenentes ou capitães (é pena que os seus nomes não fiquem gravados na vergonha da história) —, na impossibilidade de deterem o general e o seu pequeno grupo, ordenavam aos subalternos que espancassem quem pretendesse furar o cordão que, afinal, tão impotentemente os separava. As suas bocas — ouvi-as bem perto — vomitavam insultos soezes, palavrões de taberna. Entre a polícia que continha a multidão, muitos eram os que fingiam bater e murmuravam: “Se os gajos percebem que não bato, lixam-me”. E o grupo do “general sem medo” continuava a sua marcha para S. Bento, entre vivas à liberdade e morras ao fascismo, num acto electrizante de arrojo e determinação, que galvanizava todos os que o viam, dignificados pela sua coragem, com lágrimas de fel de um ódio legítimo e não contido.


Foi então que qualquer coisa — talvez só possível naquele Porto, de honra e de liberdade — surgiu, imagem que não mais se desvanecerá de minha memória, como da de tantos e tantos milhares de pessoas que a isso assistiram. Espectáculo espantoso, que uma vez mais era a certeza de que aquela canalha tinha — mais tarde ou mais cedo — os dias contados. De todo o casario que os olhos abarcavam, de cada minúscula janela, ou porta, ou simples fresta, lenços brancos acenavam um adeus de admiração, de gratidão e de esperança também, ao general que jogara tudo por tudo, oferecendo-lhe ali, agora sim, medalhas que se não conseguem em vitórias de secretaria. As muitas que ornavam a sua farda, assim como os dourados galões, nada valiam perante aquela fraterna condecoração dada por um povo — essa, realmente imperecível, imortal, e que o acompanhará pelos tempos fora, no Panteão da pátria onde os seus restos mortais merecidamente já repousam.
Quando a candidatura do general foi anunciada, não aderi a ela e, no escritório do António Macedo e do Mário Cal Brandão, gravei um pequeno depoimento justificativo da minha não adesão. Desconfiava de um general, desde o princípio homem de confiança do regime e de Salazar, que de um momento para o outro se alcandorava à chefia de uma oposição tenaz e de sempre. Afigurava-se-me cedo para o aceitar, aguardando o decorrer dos acontecimentos para o apoiar. De resto, julgo que muita gente tomou esta posição. Quando, no entanto, na sua apresentação à comunicação social, contra a vontade expressa do directório da campanha, à pergunta de um jornalista sobre o que faria de Salazar, no caso de ser eleito presidente, da República, ele respondeu “Obviamente o demito”, todos começámos a acreditar no acerto da escolha.

É evidente que a minha atitude pessoal não tem qualquer interesse histórico, salvo na medida em que ela correspondeu à de milhares e milhares de portugueses democratas. E, claro é também que, a partir do autêntico levantamento nacional que a sua passagem pelo país ia provocando, e de que a ida ao Porto foi um marco decisivo, nenhumas dúvidas tínhamos de que, fossem quais fossem os erros que aquele homem viria a cometer, ele era o homem certo na hora certa, capaz de fazer tremer e até ruir o edifício do fascismo português. 
Afastado da organização da campanha, não tive, durante muito tempo, qualquer contacto directo com o general Humberto Delgado, limitando-me a ir aos comícios e manifestações de rua, salvo uma única vez, poucos dias antes de pedir asilo na Embaixada do Brasil, ocasião em que fui a sua casa com o meu querido amigo Dr. Martinho de Faria, advogado em Barcelos, e a mulher dele, a Elsa Araújo Faria. Antes, porém, assisti, por pura casualidade, a um dos acontecimentos marcantes da sua campanha. 
Tinha ido a Coimbra, ao comício que ele ali fizera, e, quando terminou, fui ao Hotel Astória, para me encontrar com o Artur Santos Silva. Havia ali um plenário da candidatura, onde deviam tomar-se decisões extremamente importantes. Ali encontrei o meu querido amigo Professor Luís Albuquerque com a mulher, o Dr. Jaime Cortesão e a esposa, e o filho, Dr. António Cortesão, médico no Porto. Enquanto o plenário se reunia, ficámos a conversar numa salinha a seguir ao hallde entrada. Pouco tempo depois, notámos um movimento estranho entre a segurança do general e os elementos da candidatura que estavam fora do encontro. Alguém entrou no salão do conclave, enquanto outros ficavam à entrada, a falar com um homem que conheci como vice-director da PIDE no Porto, o inspector Porto Duarte. De imediato, abriu-se a porta e o general surgiu, com cara de poucos amigos, a perguntar onde estava o senhor que lhe queria falar. O Porto Duarte aproximou-se, exibindo o cartão que o identificava, e, embora bastante pálido, procurando esconder um certo nervosismo, disse-lhe: “Sou eu”. O general observou com um ostensivo desprezo o cartão e o portador e perguntou-lhe:
— “E depois? Que quer?”
— “Quero comunicar-lhe que não está autorizado a seguir para o Norte. Terá que regressar a Lisboa”.
— “Oiça, eu não recebo ordens que não venham de alguém com a minha categoria, ou superior. Portanto, de si não as recebo”.
Isto passava-se na nossa frente. Várias pessoas se ti-nham aproximado. O Porto Duarte esboçou um gesto, quase imperceptível, de levar a mão à arma, mas o general atalhou brutalmente:
— “E se o pretender fazer com uma pistola, tenho aqui outra”. E mostrou, na cintura, a arma que trazia. 


Habituados ao terror da PIDE, esta cena não parecia real. O general olhava para o outro como se fosse um verme, deu meia volta e voltou para a reunião. O PIDE estava branco como a cal, hesitou uns segundos e saiu. Passado pouco mais de um quarto de hora, foi-nos comunicado que o hotel estava cercado por forças do exército e da guarda republicana e que ninguém podia abandonar o local até nova ordem. Aguardámos até perto das duas da manhã, momento em que um oficial entregou ao general uma ordem escrita do Comandante da Região Militar, proibindo-o de se dirigir para o Norte, como estava planeado, mandando-o regressar a Lisboa.
Acabada a reunião, via-se que todos dela saíam profundamente preocupados. Regressei com o Artur e o José Neves. Soube que o general tinha posto as cartas na mesa — “dera tudo, esperava que lhe retribuíssem algum”. Ainda ouvi comentários, entre dentes: “Este homem é doido e torna-se perigoso”.


Nessa noite, o Dr. Arlindo Vicente desistia da sua candidatura e toda a oposição, a esmagadora maioria do país, se unia à volta de Humberto Delgado para tentar derrubar o salazarismo. O acto eleitoral, à custa dos golpes mais baixos, das fraudes mais descaradas, ia ser uma farsa, como farsa dramática era aquela pseudo-campanha.
Por onde o general passava, havia um levantamento irreprimível, que os constantes ataques da GNR, da PSP e, às vezes, do exército, não conseguiam evitar. Especialmente o Norte e o Alentejo, eram o alastrar de um incêndio que tinha que ser contido ou… 
Se surgisse um chefe revolucionário...

Julgo, pelo que vi, que se, nesse momento, surgisse alguém com a capacidade de um chefe revolucionário, nada o deteria. (Recordo uma noite no Porto em que as mães incitavam os filhos a ir para a rua manifestar--se; e elas também iam. Num comício em Guimarães, onde falava o Paulo Cunha, a favor do Tomás, “eles” foram perseguidos a tiro. De regresso de um comício em Fafe, vi na Maia um grupo de militares, chefiado por um alferes, atacar a polícia que pretendia dispersar a multidão que vitoriava o general). Mas não houve, infelizmente, ninguém. E parte dos que acompanhavam o general não tinha a coragem dele, nem os seus desígnios de então.
A partir daí foi aumentando a repressão, dia a dia, hora a hora, mais violenta e brutal, mais despudorada. Nas vésperas das eleições, muitos dos dirigentes das candidaturas já estavam presos e os outros aguardavam a mesma sorte. O problema era também a entrega das listas. A PIDE procurava apanhá-las e evitar que fossem entregues nos vários distritos. O medo tornava-os estúpidos e sem o mínimo pejo.


O Mário Cal Brandão pediu-me — dado que eu não era elemento conhecido da candidatura — para entregar as listas em Barcelos, em Braga e no distrito de Viseu.


Por outro lado, conhecia todos aqueles a quem as listas deviam ser entregues. Mesmo assim, aconselharam-me que usasse todas as cautelas. Deixei o meu automóvel na garagem do Luís Veiga e levei o carro dele. Pedi a uma amiga minha que me acompanhasse, para fingir ser um passeio romântico. E a missão foi cumprida.


Mas o medo era de tal ordem que algumas das listas que entreguei a um médico – felizmente uma parte insignificante – foram logo lançadas a um poço. E depois foi a vergonha total. Os resultados das mesas eram por toda a parte 90 e mais por cento, mesmo em circunscrições onde toda a gente sabia que o general tinha uma esmagadora maioria. Lembro-me que então (refiro por ser um caso que verifiquei) só cinco eleitores tinham votado no Tomás, e o resultado foi de 96%. Foi, como disse, pouco tempo antes de o general pedir asilo na Embaixada, que fui a casa dele, em Lisboa, com o Martinho de Faria e a Elsa Faria. Durante mais de duas horas, quase só ouvimos o general. A dura prova por que passara tinha deixado nele marcas evidentes. Havia nele uma mistura de revolta e de espanto. Nós, que sofríamos a ilegalidade e a violência há muito tempo, tínhamos, em cada agravo sofrido, um assomo de revolta, mas “sabíamos com que contar”. Não havia surpresa nem espanto. Raiva, apenas raiva. No general tudo era diferente. Toda a sua vida correra na mó de cima, mesmo a sua situação de delfim do Salazar o colocava para lá das discriminações, das perseguições, do pântano de injustiças e de pequenas e grandes pulhices que nos cercavam, a nós os dominados.
Só durante a campanha o general se deve ter apercebido da verdadeira realidade do regime de que fora suporte e da máquina que o procurava destruir. Mal sabia ele que o ódio terrível o faria um dia cair numa emboscada assassina. Mesmo então, começava a perceber, mas ainda não totalmente, que o regime iria, sem dores de consciência, até ao crime mais sórdido. Pobre general! Bem doloroso foi o caminho que o levou muito depois de assassinado até ao Panteão. Embora os seus assassinos – executantes, mandantes e cúmplices – continuem gozando uma infame imunidade. Ele falava, gesticulava, ameaçava como se o atacassem. Conhecedor da muita miséria interior do regime, planeava para abater o regime comprar três ou quatro generais e outros tantos almirantes, e por pouco dinheiro. Não devo ter dito meia dúzia de frases e estava profundamente perturbado com aquilo a que assistia. Já não distinguia a exaltação do desconcerto. Tudo aquilo me afligia, política e humanamente. 
Alexandre Babo» in http://www.uc.pt/rualarga/anteriores/22/22_16
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Este Primo escritor, filho do Escritor e Grande Republicano de Amarante, foi também um grande escritor e lutador contra a Ditadura Salazarista. O seu Pai lutou muito pela República, chegando a ser Ministro da Instrução, nos primeiros anos da mesma. O Alexandre era uma Pessoa muito afável e por quem nutro uma grande consideração, isto apesar de já não fazer parte do mundo dos vivos... fez questão de me enviar todos os seus livros publicados antes de morrer e já com algum sofrimento e cansaço, quis vir ao meu casamento, o que muito me honrou!

2 comentários:

  1. Não foi com sofrimento, pelo contrário, estava bem alegre. Apenas cansado. A sofrer não.

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  2. Ele próprio me referiu isso, mas pode ter sido uma força de expressão.

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